quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ah yeah, it’s the Black Keys!


Fonte: Patrícia Naves | pnaves@destak.pt

Estreia em Portugal a saber a curta dos norte-americanos The Black Keys, mais de dez anos após o início de uma carreira que deu um salto de gigante nos últimos dois discos e que os trouxe ao nosso país com as expectativas no ponto máximo. A banda que pegou no blues mais profundo da mais profunda das Américas e misturou-lhe rock a saber a Led Zeppelin, o duo que colocou de novo o rock de raíz no mapa e na moda, não deixou créditos por mãos alheias. Ficarão sempre alguns ‘e ses’ por responder… se os tivéssemos visto antes, noutra sala, num Verão, quando ainda tocavam em clubes escuros e fumarentos, quando Dan Auerbach equiparava na barba Josh T Person. A melhor resposta será que este concerto foi o melhor que podia, quando e como foi; e que por ser aqui e agora, ele foi plena e totalmente de vários milhares de fãs presentes.

Começou insólito e complicado o concerto dos Black Keys no Pavilhão Atlântico de Lisboa, o primeiro espectáculo da sua digressão europeia, depois de um aquecimento eficaz (mas com alguns problemas de som) dos Maccabees, que já mereciam um concerto a solo em Portugal. Também com problemas de som, aliás com Dan Auerbach literalmente sem se ouvir, Howling for You foi um tema quase desperdiçado, uma entrada entre a euforia e os assobios por parte do público, a fazer mesmo temer o pior. 

Problema resolvido e tempo para ver o palco, simples mas com projeções em tela, da banda e de paisagens rudes, os Black Keys apoiados ao vivo por baixista e teclista mas sempre Dan Auerbach (voz e guitarra) e Patrick Carney (bateria) em estratégico ponto central e iluminado, a lembrar uns Jack e Meg White.

«Está tudo bem»? perguntou Auerbauch, e estava ou começava a estar, com Next Girl e Run Right Back, El Camino a lançar o seu brilho. «Vamos continuar» dizia o vocalista entre músicas, dizia constantemente «vamos continuar» e «Ah Yeah» a tudo. «Ah yeah Portugal», «ah yeah» às pessoas, aos aplausos. Um blues man em pessoa, energético, empenhado, clássico, vocalmente impecável; «ah yeah», Dan Auerbach. 

Dead and Gone e Gold on the Ceiling, dois grandes temas também de El Camino, tocados de seguida, trouxeram momentos de euforia total, o Atlântico a parecer mais lotado do que estava, os problemas todos trancados lá fora. Girl Is On My Mind iniciou uma sequência de temas só com Dan e Patrick, que teve ponto alto com Little Black Submarines, cantada em uníssono pelo público, e interpretada em acústico mas fechando com improviso rock. «São um público lindo, é a nossa primeira vez», disse o vocalista, seguindo com Money Maker e Strange Times. Como seria de esperar, muito El Camino no concerto, algum Brothers, e dos temas mais antigos apenas os mais conhecidos, como este. 

Depois de momentos menos eufóricos com Sinister Kid e Nova Baby, de Brothers veio também o magnífico Ten Cent Pistol, melhor exemplo ou epitome de uma banda justamente apelidada de rock mas que vive, transpira e respira o melhor do blues. Nas letras (There's nothing worse/In this world/ Than payback from a Jealous girl), naquele tristeza única na maneira de cantar, nos gritos chorosos da guitarra, no órgão. São os blues a essência e magia dos Black Keys, e perderam-se por vezes ao vivo com o quase inevitável acelerar de muitos temas; mas não nesta, não aqui. 

Após She’s Long Gone, chegam Tighten Up e o incontornável Lonely Boy, dois temas maiores de dois discos (de novo Brothers e El Camino), que sem serem ‘maiores’ do que os anteriores se tornaram também eles absolutamente incontornáveis, numa cena musical ávida por rock puro a cheirar a folk e a bar do oeste antigo, aliás ilustrado nas projeções de uma América tão profunda quanto a sua música. 

Em encore, hora e meia depois do início, duas bolas de espelhos iluminaram o Atlântico, e Auerbach cantou em impecável falsete Everlasting Night, já a cheirar a despedida, e depois da promessa de um regresso em breve. Com I Got Mine, um verdadeiro final apoteótico, Dan literalmente de joelhos, néon com o nome da banda a surgir por detrás. E tudo termina com um dos primeiros hits, em jeito de ode aos discos passados, tão longe de uns Black Keys que hoje em dia têm de processar empresas por uso constante de músicas em anúncios. Não foi um tirinho para um grupo com 11 anos e 7 discos, foi um caminho, foi El Camino; e felizmente não se estragou nada.

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