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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O 'indie' é o novo 'mainstream'...


Publicado em Sound+Vision

É verdade que os Echo & The Bunnymen chegaram ao 8º lugar no top inglês com The Cutter em 1983, o mesmo ano em que os The Cure chegavam ao número sete comThe Love Cats e os Siouxsie & The Banshees levavam uma versão de Dear Prudence, dos Beatles, ao terceiro lugar da mesma tabela... Mas só podemos falar de uma verdadeira grande visibilidade (e volume de vendas) de bandas do mapa “alternativo” quando, em inícios dos anos 90, a MTV faz dos Nirvana nome de alta rotação, o mesmo acontecendo pela mesma altura com os Pearl Jam ou Smashing Pumpkins, entre outros mais. Vinte anos depois o que em tempos era “alternativo” foi entretanto assimilado e integrado pela cultura mainstream (e não apenas pelo mercado dos discos e dos festivais, mas também o da publicidade). Por muito haja músicos, bandas (e públicos) que se afirmem como indie nos dias que correm, na verdade poucos são os que traduzem um espírito verdadeiramente inovador, desafiante, irreverente ou simplesmente diferente como, em tempos, esse mesmo termo da nomenclatura pop/rock significava. Indie deixou há muito o "indie"(pendente) de quem operava fora do circuito do grande mercado. E transformou-se numa expressão social de quem quer ser diferente mas, na verdade, não deixa de ser igual a tantos outros... E, graças a vinte anos de criação de gostos (junto de quem divulga e de quem ouve música), afirma-se hoje como uma clara forma de cultura mainstream. 

Note-se que não querem estas palavras traduzir a ideia que a música é melhor quando só é conhecida e partilhada por meia dúzia de almas que se comportam como guardiões de tesouros preciosos que mais ninguém vê, qual Gollum e seu anel. Assim fosse, e que nos interessariam os feitos de um David Bowie ou Kraftwerk nos anos 70, uns Pet Shop Boys ou Prince nos 80, uns R.E.M. ou U2 nos 90?... Fartaram-se de vender discos e estão longe de ter uma contribuição "menor" na história da evolução das formas da cultura popular. Alcançar um vasto patamar de espectadores não é necessariamente sinónimo de uma expressão de jogos de cedência ao mercado (havendo quem também o faça, claro). O que se coloca aqui em causa é a ideia de “personalidade” diferente que a cultura indie advoga como sua, por oposição a que será o suposto esbatimento de personalidade que vemos em muito do mainstream (que existe, sim). Mas será o indie de hoje assim tão diferente?... (sem o comparar com omainstream de uma pop dominada por produtores e programas de "tele-talentos", claro).

Chegámos a um patamar de nivelamento na cultura indie que em nada traduz o seu desejo de ser diferente. E que, é verdade, faz falta para que a música e a cultura popular não se fechem em loops de mais do mesmo. Mas a verdade é que muita da música dita indie de hoje não é senão uma expressão com guitarras, baixo, bateria, vocalista, eventuais teclas e outros instrumentos, de uma certa lógica de pronto-a-vestir. Junta-se uma calça assim, uma T-shirt assado e mais aquele lenço e sai banda... E a verdade é que, uma com mais gimmick para aqui, outra com maisgimmick para ali, são todas, na sua essência, desejadamente diferentes, mas afinal desencantadamente iguais. 

Quer isto dizer que não tem havido boas ideias em terreno indie? Nada disso. Veja-se o caso de uns Animal Collective, que foram simplesmente a banda mais influente e interessante da década dos zeros. Ou nomes como uns TV on The Radio, Beirut, Devendra Banhart, White Stripes ou No Age, cujas obras marcaram o seu tempo. Mas ao vermos os nomeados para os Grammys deste ano (e a própria presença ali em 2011 de um Bon Iver – com inusitada histeria nos concertos lisboetas deste ano) repararemos que o que se apresenta como indie na verdade tem mais em comum com uma lógica de comportamento mainstream que com a carga de ousadia e diferença que, a bem da evolução das formas e da cultura, deve existir em quem está de facto a agir independentemente das normas em vigor. 

Nada contra o indie por principio. Só não acredito na maioria do indie de hoje como forma de expressão de uma vontade em criar, inventar, olhar em frente, como o recordo de heróis “indie” de outros tempos. Note-se que houve momentos de grande visão este ano. E que não faltaram grandes discos a 2012. Revelações como as de um John Talabot, Alunageorge ou Grimes. Novas visões de uns Dirty Projectors, Major Lazer, Ombre, Micachu & The Shapes, Matthew Dear. A simplicidade autoral de um Andrew Bird ou Perfume Genius. A vibrante agitação no R&B e periferias de Miguel, The Weekend ou Frank Ocean... Sim, alguns vêm de terreno "indie", mas o facto é que o grosso do indie de 2012 está longe de ser o que de melhor e mais visionário o ano nos deu a ouvir. O indie de hoje, aquele que os Grammys vão celebrar, que ouvimos nas bandas sonoras das campanhas publicitárias e nos palcos dos festivais, transformou-se numa coisa mainstream para quem acha que não quer ser mainstream, mas na verdade não deixa de o ser.

PS. E há mal em ser mainstream? Porque não se chamam antes as coisas pelos nomes?

Vejam aqui as nomeações para os Grammys de 2013, que motivaram este texto.

sábado, 28 de abril de 2012

Indie Lisboa - Breves

O terceiro dia do IndieLisboa 2012 assinala a antestreia nacional de 4.44 Last Day On Earth, o novo filme de Abel Ferrara, que passa na Culturgest pelas 21.30. O dia representa ainda o início de uma mostra do cinema do realizador suíço Lionel Baier, com a exibição de Le Garçon Stupide (filme de 2004) que, juntamente com a curtaEmilie de 1 à 5 (já de 2012) passa hoje pelas 21.30 no Cinema São Jorge. No programa da secção Indie Music destaque hoje para Wild Thing, de Jerôme de Missolz, um livro de memórias sobre a cultura rock que passa por figuras como as de Genesis P Orridge, os Velvet Underground, Iggy Pop ou Lydia Lunch. Passa à meia noite no Cinema São Jorge. De Neil Young chega mais um retrato por Jonathan Demme, desta feita em Neil Young Journeys, histórias captadas pelo realizador numa viagem de carro em maio de 2011, contadas a caminho do Massey Hall, em Toronto.

No blogue de cinema do DN, onde estamos a acompanhar o IndieLisboa há dois novos textos:

Into The Abyss, de Werner Herzog, por Flávio Gonçalves - ler aqui
De Jueves a Domingo, de Dominga Sottomayor, por Nuno Carvalho - ler aqui

Publicada por Nuno Galopim em http://sound--vision.blogspot.pt/

quarta-feira, 28 de março de 2012

Indie Lisboa

Publicado originalmente aqui


Decorreu hoje a conferência de imprensa de apresentação do festival IndieLisboa 2012, no qual os seus directores fizeram questão de salientar que não se deixaram condicionar pela crise como, admitem, no ano anterior. Um dos mais importantes festivais nacionais regressará assim a Lisboa entre 26 de Abril a 6 de Maio, dividindo-se entre a Culturgest, Cinema São Jorge e Cinema Londres, numa programação de onde se destacam 232 filmes - 38 deles portugueses - com a maior competição portuguesa de sempre (cinco longas-metragens e 18 curtas-metragens) e em antestreia mundial, o festival exibirá sete longas-metragens e 26 curtas-metragens.


A edição de 2012 do Festival - devido a cortes no orçamento - extinguiu a secção Herói Independente (retrospectiva de homenagem) pela primeira vez em nove anos, mas terá as seguintes secções: Competição Internacional, Competição Nacional, Observatório, Cinema Emergente (com direito a um programa de Cinema Suíço - "Um Bando à Parte"), Pulsar do Mundo, IndieJúnior,IndieMusic, Director's Cut, Parabéns Viennale (com destaque para cinco filmes representativos de cada década da mostra austríaca) e Novíssimos (que destaca os jovens cineastas portugueses).



Em breve destacaremos em pormenor a programação completa do IndieLisboa 2012, mas há muito bom cinema a ser exibido, além dos já anunciados Dark Horse, de Todd Solondz a abrir o certame; Le Skylab, de Julie Delply, a encerrar. E Take Shelter, de Jeff Nichols, no último dia do festival. A saber, o italiano L'estate di Giacomo, de Alessandro Comodin, presença no Festival de Locarno 2011 e vencedor do festival de Belfort 2011 ou o romeno Everybody in Our Family, ambos na competição internacional. A estes juntam-se ainda The Color Wheel, de Alex Ross Perry; O Som ao Redor, do brasileiro Kleber Mendonça Filho; L, de Babis Makridis; De jueves a domingo, de Dominga Sotomayor; Berlim Telegram, de Leila Albayaty ou Formentera, de Ann-Kristin Reyels.



A competição nacional far-se-á representar por cinco longas-metragens, entre as quais, A Casa, de Júlio Alves; Em Segunda Mão, de Catarina Ruivo, com o último papel em cinema do falecido actor Pedro Hestnes; From New York with Love, de André Valentim Almeida; Jesus Por Um Dia, de Helena Inverno e Por Aqui Tudo Bem, de Pocas Pascoal. Já nas curtas-metragens nacionais (um recorde de inscrições para o festival), dezoito delas foram seleccionadas para competição e outras terão oportunidade de serem exibidas na secção Novíssimos. De curtas-metragens e além de Rafa (vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2012) e Cerro Negro, ambas do jovem João Salaviza, o festival terá ainda oportunidade de exibir ainda One Way or Another, deEdgar Pêra; O Que Arde Cura, de Guerra da Mata; Outras Cartas ou o Amor Inventado, de Leonor Noivo; Julian, de António da Silva; Palácios de Pena, de Gabriel Abrantes ou a curta-metragem Night, de Flávio Pires (Artur) e da recém-inaugurada produtora portuense Best Take.


Na secção dedicada aos documentários, a conhecida Pulsar do Mundo, será exibido o documentário do artista e activista chinês Ai Weiwei, Ordos 100; Mercado de Futuros, de Mercedes Alvárez ou ¡Vivan las Antipodas!. No IndieMusic haverá ainda direito a Inni, sobre os Sigur Rós; Punk in Africa; Neil Young Journeys, de Jonathan Demme; Andrew Bird: Fever Year ou o brasileiro Vou Rifar o meu coração.



Já nos filmes a serem exibidos fora de concurso teremos alguns regressos inevitáveis e algumas obras bastante antecipadas: 4:44 Last Day on Earth, de Abel Ferrara, recentemente anunciado na Mostra SyFy, mas posteriormente cancelado; Into the Abyss, de Werner Herzog; Alps, do grego Yorgos Lanthimos (realizador de Dogtooth); o austríaco Michael, de Markus Schleinzer, que provocou alguma polémica no Festival de Cannes 2011 ao explorar a temática da pedofilia; Terri, de Azazel Jacbos, exibido no Festival de Sundance 2011 e The Loneliest Planet, de Julia Loktev, vencedor do Grande Prémio do Júri do AFI Fest 2011. Em português teremos ainda os documentários Raúl Brandão Era um Grande Escritor..., de João Canijo e A Vossa Casa, de João Mário Grilo.


A programação continuará com eventos paralelos, como o caso do Indie by Night na Rua Nova do Carvalho, em Lisboa e que se passará a chamar temporariamente, Rua Dr. Indie Lisboa.